domingo, 9 de novembro de 2008

Fica Direito Menino!

Nossas mães sabiam sobre o que falavam quando implicavam com nossa postura desleixada à mesa de jantar, nossa maneira desmazelada de andar e desengonçada de portar-se frente aos outros. "Fica direito menino", repreendia. Ao nosso ver, ter uma postura altiva era coisa de gente metida. Uma postura elegante atraía demais a atenção e, afinal, quem é que quer chamar a atenção senão gente metida, censurávamos.

Todos nós percebemos a força, a auto-confiança e a liberdade que uma pessoa emana ao andar com a espinha ereta, o peito aberto e a cabeça erguida. Uma pessoa assim chama a atenção e conquista o ambiente, toma conta de um espaço que é só seu, o espaço que seu corpo ocupa no espaço. Entretanto é preciso coragem para colonizar as fronteiras do corpo .

Uma palmada, uma dividida no jogo de bola, uma queda são agressões invasoras ao espaço do corpo. Sentimos algumas dessas invasões no fundo da alma e suas cicatrizes perduram a vida toda. Com o tempo os ataques ganham o reforço das palavras e do silêncio que permeia as relações sociais. As ofensivas deixam de ser fruto do ocaso e ganham causa, orientação e objetivo. A palmada não é mais necessária. Nosso corpo já sabe como se portar frente às investidas do meio e passa a assimilar os golpes durante nossa busca pela sobrevivência: retrai-se. Nós mesmos passamos a infringir ao corpo os limites que lhe são permitidos, não mais o espaço que lhe é de direito.

Ao rejeitar nosso espaço, colocamos em xeque nossa saúde física e mental. A décima edição de "Structure and Function of the Body" afirma que "boa postura significa que cada parte do corpo está mantida na posição em que favorece seu melhor funcionamento. É a posição [...] que coloca menos tensão nos músculos, tendões, ligamentos e ossos. Uma pessoa de postura despojada torna-se cansada mais facilmente, pois exige de forma anormal articulações e ossos, resultando na perda da capacidade funcional dos órgãos adjacentes e decréscimo da capacidade pulmonar".

Por fim, a inépcia em apropriar-se do corpo acaba traduzida em encurtamentos musculares, artroses e em inúmeras patologias indiretas. Por mais que nos esforcemos, o corpo intimidado, reluta em ocupar seu legítimo espaço. Passa a ser necessária muita disciplina para reconquistar o corpo e inundá-lo com consciência, atingindo seus segmentos mais negligenciados. O trabalho desenvolvido por Joseph Pilates e B.K.S. Iyengar evidenciam que a boa postura é uma manifestação de equilíbrio entre mente e corpo.

Com a prática, o sistema de Pilates aponta com precisão as realidades do corpo e redistribue o stress físico entre os grupos musculares apropriados. A concentração exigida nos movimentos, o foco em determinados grupos musculares e a rotina dos exercícios unem corpo e mente durante toda a atividade física.

Os exercícios propostos por Pilates encorajam o corpo a aumentar seus limites, buscando o tempo todo a máxima extensão, aumentando progressivamente a amplitude dos movimentos. A estabilidade e equilíbrio nascem da prática, onde determinados segmentos do corpo são isolados enquanto outros são intensamente trabalhados.

O método de Hatha Yoga proposto por B.K.S Iyengar presta uma atenção minuciosa à postura e leva o praticante a uma viagem em direção ao centro de seu próprio corpo. Através de ações precisas sobre a musculatura profunda do corpo, o praticante estabelece as conexões que regem sua postura, sua forma de movimentar-se e de expressão.

O corpo deixa de ser a resultante e passar ser ele mesmo o ponto de partida a partir do qual lança-se luz nos cantos mais esquecidos e sublimados da psique humana. A prática diligente e sistemática da atividade física começa a promover mudanças substanciais no praticante, que não demora a perceber as implicações em seu corpo e mente. É reconquistado o espaço do corpo e o corpo, por sua vez, toma conta de seu espaço neste mundo