sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Espelho, Espelho Meu.
Podemos não identificar nossa própria voz gravada na secretária eletrônica ou nos espantar com as rugas em nosso rosto em uma foto recente. Da mesma forma podemos ser surpreendidos pelas assimetrias em nosso corpo evidenciadas em uma postura de Yoga. Na frente do espelho buscamos casar a maneira como nos enxergamos com aquilo que somos na prática.
Para localizar-se no espaço e no tempo, o corpo processa uma miríade de impulsos nervosos procedentes da pele, da retina, do sistema vestibular (ouvido) e constrói uma imagem nem sempre fiel à realidade. Isso porque o cérebro interpreta toda essa informação de maneira genética, social e cultural, filtrando o modo como nos percebemos, criando padrões de movimento e hábitos tão singulares quanto nosso DNA, distanciando-nos do jeito mais trivial e, por vezes, natural de nos portarmos. Esses ruídos sociais e culturais associados às nossas características genéticas podem resultar em desequilíbrios e vícios que frequentemente traduzem-se em prejuízos à saúde.
Para inibir os impulsos que nos levam a agir de maneira equivocada é preciso abrir uma trincheira entre os estímulos que recebemos e as respostas que damos a estes estímulos e aprender a planar imóvel no espaço entre a ação e a reação.
Uma ação repetitiva torna-se rapidamente automática e inconsciente, liberando as regiões cognitivas superiores para questões mais “nobres”. Um jogador de basquete experiente, por exemplo, não pensa em bater a bola na quadra enquanto corre em direção à cesta. Para este jogador, a ação de conduzir a bola é natural, adquirida e aperfeiçoada em anos de treino. Sua cabeça está na estratégia do jogo, em seu posicionamento em quadra, em aspectos do jogo impensáveis para um iniciante que ainda luta para dominar a bola enquanto a faz quicar no chão.
Da mesma maneira, automatizamos padrões comportamentais e posturais em nosso cotidiano e liberamos as zonas cerebrais frontais para ações que dependem de avaliação consciente e que exigem planejamento. É assim, porém, que também infundimos e perpetuamos desequilíbrios diversos em nosso corpo e em nossas vidas.
Quando esses desequilíbrios tomam vulto, somos obrigados a revisitar antigos hábitos e recobrar a consciência sobre cada um dos passos que nos levaram a chegar onde estamos. Ou seja, é preciso andar para trás para voltar a andar para frente.
Ao observar nosso próprio corpo em posturas de Yoga - ásanas-, colocamos nossa consciência em cada segmento do corpo e observamos como reagimos aos diversos estímulos a que somos submetidos durante os exercícios. Redefinir e reorganizar velhos modelos para iniciar uma mudança não é fácil, pois somos incitados a retroceder no tempo para nos desvencilhar de antigos padrões. Neste sentido pode ser elucidativo encarar o Yoga como uma prática de “descondicionamento físico”, não na acepção cardio-vascular, obviamente, mas em sua abordagem neuro-muscular.
Ao permanecer no ásana, concentrados no corpo, inibindo um sem fim de estímulos que nos incitam a desistir, rejeitar, mudar ou ceder, exercitamos nosso poder de observação e nos colocamos no caminho entre a ação e a reação. Aprendemos a ganhar tempo antes de incorrer no equívoco costumeiro. Com tempo e disciplina tomamos consciência de nossos impulsos e passamos a determinar o curso dos eventos, suprimindo qualquer interferência irrefletida sobre nossas vidas.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Savasana: A Postura Final.
Quando começamos a praticar Yoga, a experiência de se deitar no chão, de barriga para cima, com as pernas estendidas, braços relaxados e os olhos fechados é simplesmente o merecido descanso após uma hora extenuante de alongamentos, flexões, extensões e rotações para todas as direções e sentidos. Ficar na postura do cadáver - ou Savasana como é conhecida - parece ser apenas mais uma maneira de relaxar que carece de técnica, conceito ou aplicação.
Quando a respiração se acalma e a mente começa a misturar-se ao fluxo de ar e às sensações que aparecem, conectamo-nos a um sentimento profundo no corpo. Normalmente a mente tenta a todo custo evitar que entremos em contato com as sensações e os sentimentos mais profundos. Podemos dizer que nosso senso de identidade depende de negar ou relegar nossas experiências indesejadas aos cantos da psique e do corpo onde o radar da percepção não pode mais encontrá-las. Caso algo seja descoberto - um pensamento desconfortável, uma sensação perturbadora, uma memória - nós imediatamente chamamos nosso exército de negações com suas estratégias inibidoras e táticas sublimantes para nos defender. Dormir ou devanear em Savasana é apenas uma dentre as muitas estratégias para nos afastar daquilo que encontramos pelo caminho em direção a nós mesmos. Assim se justifica a sensação de relaxamento encontrada em Savasana. Para quem vasculhou cada esquina do corpo e da mente durante a prática de ásanas, causa grande satisfação o retorno ao ponto de partida no fim da aula: “Ufa, até que enfim!”
Durante nossa prática de Yoga o que fica evidente são nossos padrões de atração e repulsa. Ir ou ficar, engajar ou abdicar, desistir ou continuar. Todos esses atos discriminatórios denotam nossa maneira de escolher. Somos identificados através daquilo que aceitamos e rejeitamos. Quando pensamentos inconvenientes vêem à mente e nos distraem, quando sensações desagradáveis nos empurram para fora das posturas e nos desestabilizam, nós enraizamos nosso corpo ao chão para não sermos arremessados ao sabor das ondas de pensamentos que inundam nossa mente. Assim todas as repulsas e identificações são igualmente sagradas, tudo nos ensina sobre as estratégias de atração e repúdio e onde estamos em relação ao presente momento. Observando e elaborando esses padrões temos condições de suspender muitas dessas estratégias e render-nos aos sentimentos que temos encarcerados. Essa rendição dá espaço à mente e ao corpo. Quando alguém pratica Savana nesse sentindo cria espaço e tempo para tudo.
Se a prática diligente do Yoga busca a emancipação das fronteiras impostas pela mente, a postura Savasana evidencia a dissolução e desapego exemplificados pela morte. Deitar-se simplesmente sobre o chão: há algo de profundo aqui. Não se trata de criar uma experiência ou buscar que algo aconteça, mas criar as condições para que a experiência exista. A arquitetura de Savasana exige que deixemos no chão sobre o qual nos deitamos, nosso corpo e nossos pensamentos até que um dia a estrutura construída para nossa experiência deixe de existir definitivamente. Esse é um ato ao mesmo tempo de profundo desapego e liberdade. Nossa imaginação mantém-nos muito ocupados explorando o mundo das escolhas. No fim, não há escolha alguma. Assim no centro de uma vida fulgurante, onde você está sempre olhando ao redor buscando algo melhor, ouça o infinito silêncio que habita o momento presente.
domingo, 9 de novembro de 2008
Fica Direito Menino!
Nossas mães sabiam sobre o que falavam quando implicavam com nossa postura desleixada à mesa de jantar, nossa maneira desmazelada de andar e desengonçada de portar-se frente aos outros. "Fica direito menino", repreendia. Ao nosso ver, ter uma postura altiva era coisa de gente metida. Uma postura elegante atraía demais a atenção e, afinal, quem é que quer chamar a atenção senão gente metida, censurávamos.
Todos nós percebemos a força, a auto-confiança e a liberdade que uma pessoa emana ao andar com a espinha ereta, o peito aberto e a cabeça erguida. Uma pessoa assim chama a atenção e conquista o ambiente, toma conta de um espaço que é só seu, o espaço que seu corpo ocupa no espaço. Entretanto é preciso coragem para colonizar as fronteiras do corpo .
Uma palmada, uma dividida no jogo de bola, uma queda são agressões invasoras ao espaço do corpo. Sentimos algumas dessas invasões no fundo da alma e suas cicatrizes perduram a vida toda. Com o tempo os ataques ganham o reforço das palavras e do silêncio que permeia as relações sociais. As ofensivas deixam de ser fruto do ocaso e ganham causa, orientação e objetivo. A palmada não é mais necessária. Nosso corpo já sabe como se portar frente às investidas do meio e passa a assimilar os golpes durante nossa busca pela sobrevivência: retrai-se. Nós mesmos passamos a infringir ao corpo os limites que lhe são permitidos, não mais o espaço que lhe é de direito.
Ao rejeitar nosso espaço, colocamos em xeque nossa saúde física e mental. A décima edição de "Structure and Function of the Body" afirma que "boa postura significa que cada parte do corpo está mantida na posição em que favorece seu melhor funcionamento. É a posição [...] que coloca menos tensão nos músculos, tendões, ligamentos e ossos. Uma pessoa de postura despojada torna-se cansada mais facilmente, pois exige de forma anormal articulações e ossos, resultando na perda da capacidade funcional dos órgãos adjacentes e decréscimo da capacidade pulmonar".
Por fim, a inépcia em apropriar-se do corpo acaba traduzida em encurtamentos musculares, artroses e em inúmeras patologias indiretas. Por mais que nos esforcemos, o corpo intimidado, reluta em ocupar seu legítimo espaço. Passa a ser necessária muita disciplina para reconquistar o corpo e inundá-lo com consciência, atingindo seus segmentos mais negligenciados. O trabalho desenvolvido por Joseph Pilates e B.K.S. Iyengar evidenciam que a boa postura é uma manifestação de equilíbrio entre mente e corpo.
Com a prática, o sistema de Pilates aponta com precisão as realidades do corpo e redistribue o stress físico entre os grupos musculares apropriados. A concentração exigida nos movimentos, o foco em determinados grupos musculares e a rotina dos exercícios unem corpo e mente durante toda a atividade física.
Os exercícios propostos por Pilates encorajam o corpo a aumentar seus limites, buscando o tempo todo a máxima extensão, aumentando progressivamente a amplitude dos movimentos. A estabilidade e equilíbrio nascem da prática, onde determinados segmentos do corpo são isolados enquanto outros são intensamente trabalhados.
O método de Hatha Yoga proposto por B.K.S Iyengar presta uma atenção minuciosa à postura e leva o praticante a uma viagem em direção ao centro de seu próprio corpo. Através de ações precisas sobre a musculatura profunda do corpo, o praticante estabelece as conexões que regem sua postura, sua forma de movimentar-se e de expressão.
O corpo deixa de ser a resultante e passar ser ele mesmo o ponto de partida a partir do qual lança-se luz nos cantos mais esquecidos e sublimados da psique humana. A prática diligente e sistemática da atividade física começa a promover mudanças substanciais no praticante, que não demora a perceber as implicações em seu corpo e mente. É reconquistado o espaço do corpo e o corpo, por sua vez, toma conta de seu espaço neste mundo
