terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Savasana: A Postura Final.

Quando começamos a praticar Yoga, a experiência de se deitar no chão, de barriga para cima, com as pernas estendidas, braços relaxados e os olhos fechados é simplesmente o merecido descanso após uma hora extenuante de alongamentos, flexões, extensões e rotações para todas as direções e sentidos. Ficar na postura do cadáver - ou Savasana como é conhecida - parece ser apenas mais uma maneira de relaxar que carece de técnica, conceito ou aplicação.

De fato, em Savasana devemos nos desvencilhar de qualquer técnica respiratória e simplesmente deixar o ar fluir em seu padrão inerente de inspiração e expiração. Quando a respiração encontra seu caminho livre através do corpo, a mente também o faz inundando o corpo em ondas de pensamento e sensações que fluem no ritmo da respiração. Quando a respiração está livre, a mente está livre. Quando a respiração pode mover-se com naturalidade, a mente fica alerta e tranqüila ao mesmo tempo.

Dormir parece ser a experiência mais comum na postura do morto e freqüentemente sonhar e até mesmo roncar. Não há nada de mal em pegar no sono durante esta postura. Trata-se apenas de mais um condicionamento da mente, ou seja, deitar e dormir. Em tempos de calmantes psicotrópicos parece até mesmo um ganho conseguirmos pegar no sono em um chão duro, sem o uso de qualquer artifício. Mas isso nos afasta das sutilezas da postura Savasana.

Quando a respiração se acalma e a mente começa a misturar-se ao fluxo de ar e às sensações que aparecem, conectamo-nos a um sentimento profundo no corpo. Normalmente a mente tenta a todo custo evitar que entremos em contato com as sensações e os sentimentos mais profundos. Podemos dizer que nosso senso de identidade depende de negar ou relegar nossas experiências indesejadas aos cantos da psique e do corpo onde o radar da percepção não pode mais encontrá-las. Caso algo seja descoberto - um pensamento desconfortável, uma sensação perturbadora, uma memória - nós imediatamente chamamos nosso exército de negações com suas estratégias inibidoras e táticas sublimantes para nos defender. Dormir ou devanear em Savasana é apenas uma dentre as muitas estratégias para nos afastar daquilo que encontramos pelo caminho em direção a nós mesmos. Assim se justifica a sensação de relaxamento encontrada em Savasana. Para quem vasculhou cada esquina do corpo e da mente durante a prática de ásanas, causa grande satisfação o retorno ao ponto de partida no fim da aula: “Ufa, até que enfim!”

Na maior parte do tempo nós estamos enredados em distrações. O pensador indiano Patanjali (300 DC) chama a isso de avidya. A idéia de avidya está relacionada ao ato de nos identificarmos com aquilo que pensamos ser. Em Savasana isso não ocorre pois somos levados a contemplar sem dar atenção ao que quer que apareça e permitir que aterrissemos de mala e cuia no momento presente. O vazio da morte evocado por Savasana está relacionado ao vazio do momento presente, quando enterramos o passado e desaparecemos do futuro. “Savasana oferece a possibilidade de uma pequena morte, a cada momento, a cada dia”, diz o yogue Patthabhi Jois.

Durante nossa prática de Yoga o que fica evidente são nossos padrões de atração e repulsa. Ir ou ficar, engajar ou abdicar, desistir ou continuar. Todos esses atos discriminatórios denotam nossa maneira de escolher. Somos identificados através daquilo que aceitamos e rejeitamos. Quando pensamentos inconvenientes vêem à mente e nos distraem, quando sensações desagradáveis nos empurram para fora das posturas e nos desestabilizam, nós enraizamos nosso corpo ao chão para não sermos arremessados ao sabor das ondas de pensamentos que inundam nossa mente. Assim todas as repulsas e identificações são igualmente sagradas, tudo nos ensina sobre as estratégias de atração e repúdio e onde estamos em relação ao presente momento. Observando e elaborando esses padrões temos condições de suspender muitas dessas estratégias e render-nos aos sentimentos que temos encarcerados. Essa rendição dá espaço à mente e ao corpo. Quando alguém pratica Savana nesse sentindo cria espaço e tempo para tudo.

Quando os esforços cessam, nós estamos aptos, mesmo que seja por alguns segundos, a morrer em Savasana. O apego é deixado de lado quando o “eu” está ausente. Quando não há visões, conceitos, pensamentos, ideais, o mundo é visto sem filtros, modificações, interpretações, metas ou qualificações. Em outras palavras: nós permitimos que nossa idéia de mundo morra e nossa consciência do tempo se dissolva. Não há nada há fazer. Pensar torna-se um exercício estéril e dialético. Além do entendimento lógico e racional, surge a serenidade de Savasana.

Se a prática diligente do Yoga busca a emancipação das fronteiras impostas pela mente, a postura Savasana evidencia a dissolução e desapego exemplificados pela morte. Deitar-se simplesmente sobre o chão: há algo de profundo aqui. Não se trata de criar uma experiência ou buscar que algo aconteça, mas criar as condições para que a experiência exista. A arquitetura de Savasana exige que deixemos no chão sobre o qual nos deitamos, nosso corpo e nossos pensamentos até que um dia a estrutura construída para nossa experiência deixe de existir definitivamente. Esse é um ato ao mesmo tempo de profundo desapego e liberdade. Nossa imaginação mantém-nos muito ocupados explorando o mundo das escolhas. No fim, não há escolha alguma. Assim no centro de uma vida fulgurante, onde você está sempre olhando ao redor buscando algo melhor, ouça o infinito silêncio que habita o momento presente.

domingo, 9 de novembro de 2008

Fica Direito Menino!

Nossas mães sabiam sobre o que falavam quando implicavam com nossa postura desleixada à mesa de jantar, nossa maneira desmazelada de andar e desengonçada de portar-se frente aos outros. "Fica direito menino", repreendia. Ao nosso ver, ter uma postura altiva era coisa de gente metida. Uma postura elegante atraía demais a atenção e, afinal, quem é que quer chamar a atenção senão gente metida, censurávamos.

Todos nós percebemos a força, a auto-confiança e a liberdade que uma pessoa emana ao andar com a espinha ereta, o peito aberto e a cabeça erguida. Uma pessoa assim chama a atenção e conquista o ambiente, toma conta de um espaço que é só seu, o espaço que seu corpo ocupa no espaço. Entretanto é preciso coragem para colonizar as fronteiras do corpo .

Uma palmada, uma dividida no jogo de bola, uma queda são agressões invasoras ao espaço do corpo. Sentimos algumas dessas invasões no fundo da alma e suas cicatrizes perduram a vida toda. Com o tempo os ataques ganham o reforço das palavras e do silêncio que permeia as relações sociais. As ofensivas deixam de ser fruto do ocaso e ganham causa, orientação e objetivo. A palmada não é mais necessária. Nosso corpo já sabe como se portar frente às investidas do meio e passa a assimilar os golpes durante nossa busca pela sobrevivência: retrai-se. Nós mesmos passamos a infringir ao corpo os limites que lhe são permitidos, não mais o espaço que lhe é de direito.

Ao rejeitar nosso espaço, colocamos em xeque nossa saúde física e mental. A décima edição de "Structure and Function of the Body" afirma que "boa postura significa que cada parte do corpo está mantida na posição em que favorece seu melhor funcionamento. É a posição [...] que coloca menos tensão nos músculos, tendões, ligamentos e ossos. Uma pessoa de postura despojada torna-se cansada mais facilmente, pois exige de forma anormal articulações e ossos, resultando na perda da capacidade funcional dos órgãos adjacentes e decréscimo da capacidade pulmonar".

Por fim, a inépcia em apropriar-se do corpo acaba traduzida em encurtamentos musculares, artroses e em inúmeras patologias indiretas. Por mais que nos esforcemos, o corpo intimidado, reluta em ocupar seu legítimo espaço. Passa a ser necessária muita disciplina para reconquistar o corpo e inundá-lo com consciência, atingindo seus segmentos mais negligenciados. O trabalho desenvolvido por Joseph Pilates e B.K.S. Iyengar evidenciam que a boa postura é uma manifestação de equilíbrio entre mente e corpo.

Com a prática, o sistema de Pilates aponta com precisão as realidades do corpo e redistribue o stress físico entre os grupos musculares apropriados. A concentração exigida nos movimentos, o foco em determinados grupos musculares e a rotina dos exercícios unem corpo e mente durante toda a atividade física.

Os exercícios propostos por Pilates encorajam o corpo a aumentar seus limites, buscando o tempo todo a máxima extensão, aumentando progressivamente a amplitude dos movimentos. A estabilidade e equilíbrio nascem da prática, onde determinados segmentos do corpo são isolados enquanto outros são intensamente trabalhados.

O método de Hatha Yoga proposto por B.K.S Iyengar presta uma atenção minuciosa à postura e leva o praticante a uma viagem em direção ao centro de seu próprio corpo. Através de ações precisas sobre a musculatura profunda do corpo, o praticante estabelece as conexões que regem sua postura, sua forma de movimentar-se e de expressão.

O corpo deixa de ser a resultante e passar ser ele mesmo o ponto de partida a partir do qual lança-se luz nos cantos mais esquecidos e sublimados da psique humana. A prática diligente e sistemática da atividade física começa a promover mudanças substanciais no praticante, que não demora a perceber as implicações em seu corpo e mente. É reconquistado o espaço do corpo e o corpo, por sua vez, toma conta de seu espaço neste mundo