Quando começamos a praticar Yoga, a experiência de se deitar no chão, de barriga para cima, com as pernas estendidas, braços relaxados e os olhos fechados é simplesmente o merecido descanso após uma hora extenuante de alongamentos, flexões, extensões e rotações para todas as direções e sentidos. Ficar na postura do cadáver - ou Savasana como é conhecida - parece ser apenas mais uma maneira de relaxar que carece de técnica, conceito ou aplicação.
Quando a respiração se acalma e a mente começa a misturar-se ao fluxo de ar e às sensações que aparecem, conectamo-nos a um sentimento profundo no corpo. Normalmente a mente tenta a todo custo evitar que entremos em contato com as sensações e os sentimentos mais profundos. Podemos dizer que nosso senso de identidade depende de negar ou relegar nossas experiências indesejadas aos cantos da psique e do corpo onde o radar da percepção não pode mais encontrá-las. Caso algo seja descoberto - um pensamento desconfortável, uma sensação perturbadora, uma memória - nós imediatamente chamamos nosso exército de negações com suas estratégias inibidoras e táticas sublimantes para nos defender. Dormir ou devanear em Savasana é apenas uma dentre as muitas estratégias para nos afastar daquilo que encontramos pelo caminho em direção a nós mesmos. Assim se justifica a sensação de relaxamento encontrada em Savasana. Para quem vasculhou cada esquina do corpo e da mente durante a prática de ásanas, causa grande satisfação o retorno ao ponto de partida no fim da aula: “Ufa, até que enfim!”
Durante nossa prática de Yoga o que fica evidente são nossos padrões de atração e repulsa. Ir ou ficar, engajar ou abdicar, desistir ou continuar. Todos esses atos discriminatórios denotam nossa maneira de escolher. Somos identificados através daquilo que aceitamos e rejeitamos. Quando pensamentos inconvenientes vêem à mente e nos distraem, quando sensações desagradáveis nos empurram para fora das posturas e nos desestabilizam, nós enraizamos nosso corpo ao chão para não sermos arremessados ao sabor das ondas de pensamentos que inundam nossa mente. Assim todas as repulsas e identificações são igualmente sagradas, tudo nos ensina sobre as estratégias de atração e repúdio e onde estamos em relação ao presente momento. Observando e elaborando esses padrões temos condições de suspender muitas dessas estratégias e render-nos aos sentimentos que temos encarcerados. Essa rendição dá espaço à mente e ao corpo. Quando alguém pratica Savana nesse sentindo cria espaço e tempo para tudo.
Se a prática diligente do Yoga busca a emancipação das fronteiras impostas pela mente, a postura Savasana evidencia a dissolução e desapego exemplificados pela morte. Deitar-se simplesmente sobre o chão: há algo de profundo aqui. Não se trata de criar uma experiência ou buscar que algo aconteça, mas criar as condições para que a experiência exista. A arquitetura de Savasana exige que deixemos no chão sobre o qual nos deitamos, nosso corpo e nossos pensamentos até que um dia a estrutura construída para nossa experiência deixe de existir definitivamente. Esse é um ato ao mesmo tempo de profundo desapego e liberdade. Nossa imaginação mantém-nos muito ocupados explorando o mundo das escolhas. No fim, não há escolha alguma. Assim no centro de uma vida fulgurante, onde você está sempre olhando ao redor buscando algo melhor, ouça o infinito silêncio que habita o momento presente.

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